O Saber dos Sabores
Vevé Bragança
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Sopa de Pedra?

Por Vevé Bragança

Existem muitas versões sobre este prato de nome curioso, a maioria absoluta traz a pedra como um pretexto ou ardil, utilizado por um peregrino no intuito de conseguir uma refeição grátis.

Conta a lenda que um pobre frade peregrino, chegando faminto a uma aldeia, mas orgulhoso ao ponto de esmolar por comida, se dirigiu ao ferreiro da aldeia e pediu emprestado uma panela para que pudesse preparar a sua especial receita de sopa de pedra. Curioso, o ferreiro atendeu ao pedido do frade, que foi ao poço do vilarejo, seguido pelo ferreiro, que a essa altura já havia comentado com outros aldeões sobre a inusitada sopa de pedra que o frade iria preparar.

O frade colocou água na panela e fez uma pequena fogueira bem ao centro da aldeia, sentou-se próximo à panela, tirando da sua sacola uma pedra lisa e muito bem lavada. Os aldeões que cercavam o frade ficaram mais curiosos ainda, indagando avidamente pela sopa de pedra. O frade colocou a pedra dentro da panela, mas explicou que seria necessário temperar a sopa. Um voluntarioso aldeão ofereceu sal, mas o frade interpelou, dizendo seria melhor um pedaço de chouriço ou toucinho. E logo foi atendido. Em seguida, o frade perguntou se alguma boa alma não poderia ofertar algo para engrossar a sopa, como batatas e feijão que houvessem sobrado de uma refeição anterior. Mais uma vez, o frade foi prontamente atendido. Assim, a sopa de pedra tomava corpo com a carne que estava junto com o feijão e batatas. Um outro aldeão, ansioso por ver o resultado final, adiantou-se em oferecer cenouras, as quais foram muito bem vindas, o que obviamente fez resultar em uma saborosa e substanciosa sopa, só que agora não mais tão somente de pedra.

O frade saciou-se com a sopa e ainda ofereceu aos aldeões, os quais refestelaram-se com a novidade. Ao final, o frade retirou cuidadosamente a pedra da panela, lavou-a e voltou a guardá-la em sua bolsa para a sopa seguinte, em sua próxima parada.

almeirim

Estátua dedicada ao frade da lenda da sopa da pedra, em Almeirim, Ribatejo, Portugal.

A culinária de Portugal, adotou a sopa de pedra, como sendo um dos seus pratos típicos. Em particular, a cidade de Almeirim, situada na região do Ribatejo é hoje considerada pelos portugueses “a capital da sopa da pedra”.

Entretanto, se voltarmos o nosso olhar para a pré-história, quando o homem de neandertal aprendeu a dominar o fogo, entre 300 e 400 mil anos atrás [Wil Roebroeks, da Universidade Leiden (Holanda), e Paola Villa, da Universidade do Colorado (Estados Unidos)], podemos deduzir que o primeiro método de cocção empregado na alimentação humana foi assar a carne dos animais abatidos nas caçadas. Através do método empírico da tentativa e do erro, é bastante provável que os neandertais, que viviam em cavernas, fizessem uso de pedras vulcânicas em suas fogueiras, uma vez que, este tipo de rocha proporciona excelente aquecimento e a quantidade de fumaça emitida é menor do que outros materiais comburentes, como a madeira, por exemplo, além de absorver a gordura da carne que ia ao fogo. Assim, os homens das cavernas podiam ter aquecimento em tempo integral sem serem asfixiados pela fumaça.

Sabe-se hoje, que as pedras vulcânicas podem ser usadas entre 10 e 15 vezes com a mesma eficiência, dependendo do tipo de carne e sua quantidade de gordura, além de serem ricas em minerais, como o sódio, por exemplo, o que lhes confere potencial salobro.

Já nas Idades do Cobre, do Bronze e do Ferro, quando o homem começou dominar as técnica de fundição e moldagem dos metais, os métodos de cocção evoluíram juntamente com o aparecimento dos caldeirões, onde eram preparados ensopados e guisados. Como o sal não era acessível a todos os povos,  as pedras vulcânicas, por sua capacidade de acumular calor e por seu sabor salobro, eram introduzidas aquecidas nas preparações com o intuito de manter o calor e salgar as receitas. Até hoje na China, a técnica culinária de se colocar uma peça de porcelana aquecida, mais comumente uma colher, dentro das preparações com caldo, é utilizada, justamente, com o objetivo de manter a temperatura elevada.